A UMBANDA, A QUARESMA, A PÁSCOA CRISTÃ E A TRANSMUTAÇÃO DO SER.

A UMBANDA, A QUARESMA, A PÁSCOA CRISTÃ E A TRANSMUTAÇÃO DO SER.

A maioria de nós, umbandistas, viemos de outras religiões, muitos foram católicos, outros espíritas, tantos outros migraram do Candomblé ou de outros cultos de nação e, ainda muitos, de outras tantas religiões. Isso é consequência da diversidade cultural do povo brasileiro, o que inclui, por certo, nossa formação religiosa.

Naturalmente, ao ter contato com a Umbanda trazemos marcados em nosso íntimo as crenças, dogmas e conceitos dessas religiões. Porém, a Umbanda possui sua própria interpretação e fundamentos, apesar do sincretismo que marca sua formação, o que deve ser compreendido para uma melhor adequação dos conceitos próprios da Umbanda pelo adepto, não só o neófito assim como aos mais antigos que se fecham para as boas novas umbandistas.

O sincretismo religioso não é privilégio da Umbanda, pois todas as religiões nascem do sincretismo com outras religiões. O catolicismo, por exemplo, nasce do sincretismo com o judaísmo, assim como o islamismo tem em sua origem no cristianismo nestoriano e influências zoroastrianas.

Ainda nesse sentido, o próprio cristianismo tem diversas interpretações teológicas, o que faz existir diversas religiões que surgiram a partir da dissidência ideológica com a Igreja Católica Apostólica Romana e, nessa última, ainda há vertentes com teologia própria, como acontece com os Marinistas, Jesuítas, Franciscanos, etc.

Voltando à Umbanda, sabemos que ela possui na sua base de formação correntes de influência judaico/cristã; africana yorubá e bantu, européia espírita, ameríndia e também de outras culturas religiosas orientais, portanto, bebe de várias fontes, sendo, por essa razão, uma religião universalista.

Diante dessa diversidade cultural/religiosa, advém influências de cultos diversos e de dogmas que não são propriamente umbandistas, dentre eles está a Quaresma e a comemoração da Páscoa cristã, entretanto, não são todas as correntes culturais formadoras da Umbanda em que a referida comemoração está presente.

No cristianismo, mais fortemente no catolicismo, a páscoa é comemorada e representa a ressurreição do Cristo, assim como outras religiões cristãs também relembram o martírio e a ressurreição do Cristo, apesar de uma forma diferente, mas como a mesma finalidade.

Na tradição judaica não há páscoa, o que existe é o Pessach, que representa a “passagem”, quando comemora-se a “libertação” de seu povo da escravidão no Egito. No ano de 2015, particularmente, a festa judaica coincidiu com a comemoração católica, apesar de não possuírem ligação entre uma e outra, pois apesar do calendário judaico ser diferente do calendário Cristão, como referido, houve coincidência.

Os espíritas (kardecistas) não seguem dogmas de outras religiões e, apesar de terem entre sua base fundamental o Evangelho do Cristo, não cultuam a Páscoa da forma entendida pelos católicos. Um dos motivos seria o fato de não se crer na ressurreição, mas sim na reencarnação, assim como nós umbandistas. Numa assertiva mais aprofundada, pode-se refletir que Cristo não ressuscitou, assim como entendido pelas culturas que negam a reencarnação, pois o Cristo, que possui sua alma imortal, assim como todos filhos de Deus, ascendeu com seu corpo físico, o que deve nos levar a outras reflexões, entretanto, não sendo o objeto desse pequeno texto.

Entre os africanos yorubás não havia comemoração da páscoa, haja vista que seu povo sequer conhecia Jesus Cristo. Me refiro exclusivamente aos africanos yorubás, porque foi a partir de sua cultura que herdamos o culto aos orixás. Lembremos que os africanos de origem angolana cultuavam N’nkises e os de origem do Benin os Voduns.

Assim como ocorre com os yorubás, na cultura ameríndia também não há referência do Cristo, sendo essa cultura também herdada pela Umbanda.

Já dentre tantas outras religiões orientais, também não há relação com Cristo, desse modo, tampouco significado tem a páscoa/cristã, assim sendo para o hinduísmo, o budismo, o taoísmo, etc, etc, etc.

Apesar de toda a influência e sincretismo existente na formação da Umbanda, ela possui fundamentos próprios, dentre eles sua Teologia (teorização da religião), Cosmogonia ou Gênese (interpretação da formação do Universo) e Teogonia (teoria da origem das divindades), e nesses fundamentos não há referência da Quaresma assim como não há da Páscoa Cristã.

Apesar dessa característica universalista existente em nossa religião, podemos, através de uma visão umbandista, porque não, fazer da Páscoa um momento de renovação, ou melhor dizendo, de transmutação de sentimentos, atitudes, pensamentos e, por fim, na nossa forma de viver.

Isso faz com que essa seja mais uma das muitas oportunidades de praticarmos a autoanálise, com a qual buscamos o autoconhecimento, para que possamos alcançar a necessária reforma íntima. Enfim, como gravado nos Templos da antiguidade, é o exercício do “Conhece a ti mesmo e conheceras o universo e os deuses”.

Ainda de um ponto de vista umbandista e baseado exclusivamente em seus fundamentos, podemos aproveitar a oportunidade para nos ajoelharmos diante do Trono da Evolução, onde se assenta Pai Obaluayê, Orixá universal e representante da qualidade Divina da Evolução, responsável pela transmutação dos seres pela renovação, assim como Mãe Nanã Buroquê, Orixá Cósmico, que possui dentre um de seus Fatores Divinos a decantação dos vícios e dos sentimentos negativados.

Com esse entendimento podemos aproveitar e rogar para que Mãe Nanã decante nossos sentimentos e pensamentos negativos, purificando-os, abrandando-nos e que Pai Obaluayê nos auxilie em nossa transmutação, possibilitando nossa evolução.

Importante é que possamos compreender a importância do respeito e do amor ao próximo, e que não percamos as oportunidades de aprender e evoluir, não limitando nossos olhares às formas e, assim, não percamos a oportunidade de sentir a Essência Divina, presente em todas as culturas.

Renovar é livrar-se do antigo, Transmutar é a alquimia da vida, somos alquimistas, transformemo-nos de pedras brutas em diamantes.

A palavra chave que abre o portal da Umbanda é “REFLEXÃO”.

Saravá, Amém, Aleluia, Shalom, Salaam, Namastê, Mukuiu, Mutumbá, Kolofé, Axé!

Feliz Páscoa àqueles que renascem, evoluem e crescem.

Bruno Stanchi

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