A História da Festa de Iemanjá em São Paulo

A História da Festa de Iemanjá em São Paulo (Dezembro)

 
No Rio de Janeiro, a Festa de Iemanjá é comemorada no dia 31 de dezembro, na virada do ano, em frente ao mar. Hoje vemos muitas pessoas comemorando o Ano Novo na orla marítima vestidos de branco, pulando sete ondas e levando champgne para ser estourada no mar; realizam esse ritual como uma simpatia, sem se darem conta de que o mesmo faz parte da tradição umbandista, que há um século vem influenciando nossa sociedade. Na Bahia, a Festa de Iemanjá é essencialmente candomblecista e teve início com grupos de pescadores devotos a Nossa Senhora dos Navegantes, sincretizada com Iemanjá e comemorada no dia 2 de Fevereiro. Em São Paulo, a Festa de Iemanjá é comemorada no dia 9 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, sincretizada com Oxum.
 

Ronaldo Linares nos conta que a escolha da data deve-se ao fato de que, inicialmente, em torno de 1956, teve início uma festividade na Praia das Vacas, próximo a Ponte Pênsil, do lado da Praia Grande. A festividade era chamada de “Encontro das Águas” e começava e começava com uma procissão realizada por Pai Jaú, que levava a imagem de Iemanjá ao encontro da imagem de Oxum  (Nossa Senhora da Conceição), no dia desta, levada por José Costa Moura da Federação Umbandista do Estado de São Paulo (Fuesp). Lembra-se, Ronaldo Linares, da presença de Demétrio Domingues e afirma: “Não podemos precisar como começou, o local era primitivo, não tinha nada além do estabelecimento militar, nos reuníamos em pequenos grupos, no início eram apenas alguns terreiros”. 
Já na década de 1960 (depois do golpe de 64), tendo em vista o aumento de frequentadores na Praia das Vacas, que é área militar, foi proibido continuar com o “Encontro das Águas” naquele local. Pai Jaú (Liga de São Jerônimo) passou a realizar sua festa na Praia Grande, em frente da Avenida Costa e Silva, junto com suas tendas filiadas, associadas e afins, mantendo a mesma data: 9 de dezembro.
Com o tempo as Federaçãos e Tendas seguiram seu exemplo, afinal Pai Jaú foi o mais atuante e influente umbandista no período de instalação da Umbanda Paulista. Lembra ainda Pai Ronaldo que, nessa época, a Praia Grande era um capinzal de difícil acesso.
A primeira festa em homenagem a Iemanjá, nas areias da Praia Grande, reunindo um grande número de tenda e médiuns, foi realizada em 1953, por Félix Nascentes Pinto, presidente fundador do Primado de Umbanda em São Paulo, hoje Primado do Brasil. E, graças à sua influência política e em homenagem ao Caboclo Mirim e seu médium Benjamin Figueiredo, o bairro onde se realizou essa festividade passou a chamar-se, oficialmente, Vila Mirim.
A Festa de Iemanjá, oficial, na Praia Grande, teve início em 1969 na administração do prefeito Dorivaldo Lória Junior e da Primeira Dama Layde Rodrigues Reis Lória, que era  simpatizante e frequentadora da Umbanda. Essa primeira festa oficial teve uma importante participação de Pedro Furlan (União Regional da Zona Oeste da Grande São Paulo), como um dos grandes responsáveis pela concretização desse sonho, que contou em sua primeira edição com aproximadamente 15 mil participantes. 
Com o passar dos anos, a Festa de Iemanjá começou a atrair um público cada vez maior; notícias de 1975 falam de 300 mil Umbandistas, com mais de 4 mil ônibus e 1200 tendas, distribuídas em toda a sua orla. Com fundação da FUGABC, 1973, Pai Ronaldo Linares passa a ter grande participação ocupando nas areias e o espaço que antes pertencia a Pai Jaú  e realizando entre outras atividades o famoso “Congá ao Vivo”, um altar umbandista montado com médiuns caracterizados de Santos e Orixás.
Em 1976, Pai Demétrio Domingues, presidente da Associação Paulista de Umbanda, foi o principal articulador e responsável direto pela fabricação e colocação da estátua de Iemanjá na Vila Mirirm, onde está há mais de 30 anos. O informativo “Integração Umbandista”, de 1979, faz estimativa de mais de um milhão de pessoas, o que deve ter sido o ponto mais alto da Festividade. 
Em 1986, o espaço físico passou a ser delimitado em 12 quilômetros, divididos entre federações, e estas passaram a pagar taxas para a prefeitura, por conta do so do solo (das areias da praia) e também, pelo acesso de cada ônibus que entra no município. Esses valores foram repassados para filiados, com acréscimos de despesas, o que foi desanimador para boa parte dos umbandistas. Cada federação tem a responsabilidade pelos seus valores e pela organização do espaço a ela destinado; assim, encontramos umas mais e outras menos organizadas. Em 1990, a Federação Umbandista do Grande ABC, de Ronaldo Linares, que ocupava o maior espaço na orla da Praia Grande, passou sua festividade para o município de Mongaguá, onde encontraria mais espaço e condições para organizar melhor sua festa anual à Rainha do Mar.
Ronaldo Linares conta que “Demétrio Domingues abria as festividades no primeiro final de semana e eu fechava no segundo”. Atualmente, a Festa de Iemanjá na Praia Grande ocupa os dois primeiros finais de semana de Dezembro, nos quais é realizado pela Souesp e o segundo pela União de Tendas, de Pai Jamil Rachid.Texto extraído do Livro “História da Umbanda” de Alexandre Cumino

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