A trindade Umbandista

A Trindade Umbandista

A tríade formadora da religião Umbanda é o caboclo, o preto velho e a criança. Ao redor destas entidades e de suas qualidades é que a Umbanda se sustenta.
No caboclo identificamos o índio brasileiro. O guerreiro, dono da terra chamada hoje de Brasil e que não se deixou escravizar. O caboclo é a alma lutadora. É o espírito do povo brasileiro. É o povo que, mesmo diante da invasão de suas terras, mesmo após a devastação de suas tribos, encontra força para preservar suas tradições, sua língua, seus cânticos, seus costumes, sua forma de viver em comunhão com a natureza que lhe dá sustento. O caboclo respeita o verde e respeita a água que o cerca. O caboclo sabe que não é ele que sustenta a mãe terra. É a mãe terra que sustenta a sua existência.

O caboclo é o símbolo da valentia de um povo, da honradez da alma, da sinceridade do olhar puro dos donos de nossa terra. Tiveram estes índios que se adaptar às novas condições impostas pelos colonizadores e assim, aprender a viver e a conviver com os invasores. O homem branco, no período de colonização do Brasil, espantou-se com a forma de viver do índio. O índio, por sua vez, ensinou ao homem branco, que se achava muito culto e muito civilizado, a tomar banho uma vez por dia e a limpar seu corpo com as águas cristalinas de mamãe Oxum que somente um povo que respeita a natureza possui.
Os pretos velhos são espíritos de altíssima envergadura moral e ética. São portadores das mensagens mais lindas e edificantes da história da Umbanda. A primeira manifestação do preto velho dentro do ritual umbandista foi a de Pai Antônio, incorporado em seu cavalo Pai Zélio Fernandino de Moraes. Ao se manifestar no terreiro de Pai Zélio, que possuía e ainda possui uma mesa em que os médiuns se sentam para incorporar os caboclos e caboclas, Pai Antônio encaminha-se para um canto isolado do terreiro. Ao ser chamado para sentar-se à mesa, Pai Antonio diz:
– Nego num senta não meu sinhô, nego fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e nego deve arrespeitá.
Hoje, se esta passagem fosse analisada por qualquer associação de defesa dos direitos humanos certamente teriam acionado as autoridades competentes para colocar Pai Antônio na cabeceira da mesa presidindo aquela sessão espiritual. Contudo, Pai Antônio estava, naquele momento, oferendo valiosa lição já conhecida por todos nós e esquecida nos diversos momentos de nossas vidas. A lição de que os humildes serão exaltados e os que se elevam acima de suas condições serão recolocados em seus lugares de merecimento perante a Ordem Divina. Pai Antônio ensinou aos médiuns da casa de Pai Zélio a ordem que deve ser seguida por toda a Umbanda. Todos, indistintamente, devem reconhecer o seu lugar dentro da corrente e a humildade de espírito fará com que estes lugares sejam ocupados pelos espíritos de elevada luz que trarão o conhecimento necessário para o progresso humano.
As palavras ditas de forma calma, a compaixão, o amor e a devoção a nosso Deus Olorum são as únicas portas de acesso ao Seu conhecimento inesgotável. Com poucos gestos, com poucas palavras podemos mudar o destino de nossa sociedade. Quando estes gestos pequenos, quando estes exemplos de humildade e perseverança forem seguidos por um número incontável de pessoas, a começar pelos umbandistas, toda a sociedade brasileira irá reconhecer sua magnitude. Do pouco se faz muito. É subindo a escada de degrau em degrau que o médium umbandista alcança a perfeição do ritual de sua religião e entende que a simplicidade de culto não é fruto da ignorância. Ao contrário disto, a simplicidade ritualística da Umbanda para com os Orixás é fruto da grandiosidade de seus fundadores e de seus seguidores. A construção de uma religião sólida começa pelo aprimoramento de seus praticantes que, dia após dia, afiam suas espadas e moldam seus escudos para defender e avançar nas linhas de trabalho da grande Lei de Umbanda.
Preto velho é a manifestação da humildade. É o “dar a outra face”. É a experiência adquirida por meio de uma vida sofrida. É a garantia de que os mais humildes possuem lugar guardado em Aruanda. É a revelação de que posses materiais e um linguajar rebuscado não são a única fonte de revelação dos mistérios da espiritualidade. É entender que o espírito é dotado de outras qualidades que podem e devem ser encontradas em todas as manifestações voltadas para o bem do próximo e para a prática da caridade, para a prática que leva a alma à verdadeira casa de Deus.
O que seria da valentia e da resiliência indígena, da humildade e da sabedoria dos pretos velhos sem a alegria das crianças. É de se admirar ver adultos, pessoas de respeito dentro de nossa sociedade e de grande admiração brincando como crianças incorporadas com estas entidades. É a lembrança de nossa história. É a revelação que, dentro de cada um, reside a pureza da alma. A infantilidade é tida em nossa sociedade como um desvio de caráter. Uma pessoa infantil é egocêntrica. É mandona. É uma pessoa chata. Porém, não percebemos isto na manifestação mediúnica das crianças dentro de um terreiro de Umbanda.
Verificamos em uma gira da Linha de Trabalho das crianças a instalação no terreiro de uma alegria coletiva, de uma vibração única emotiva e transformadora. Não conseguimos entender o motivo dos terreiros se esvaziarem nos dias em que abrimos a gira das crianças. Quando temos uma gira de esquerda com nossos guardiões Exus e Pombagiras, os terreiros ficam lotados de médiuns e de assistência. Dizem que os Exus e Pombagiras falam as coisas “na lata” sem medir palavras. Contudo, não são as crianças a personificação da verdade? Não é corriqueiro falarmos que criança não mente?
Talvez, a repulsa pela gira de crianças seja justamente isto. Enquanto Exus e Pombagiras falam verdades moderadas, as crianças nos contam verdades sem moderação e, por serem crianças, não as levamos à sério. Chegará o dia em que a Linha de Trabalho das Crianças será levada à sério trazendo a pureza verdadeira de suas manifestações e sua capacidade incontestável de curar os males do espírito. Não há trabalho feito que não possa ser quebrado pela criança. Não há uma só doença espiritual que não possa ser curada pela transformadora Linha de Trabalho das Crianças.

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